Presente de Reis
Combinamos um encontro, eu sei. Mas me esqueci, me confundi, perdi a hora. Ou melhor, me distraí com uma pequena folha caída sobre o tapete. Sim, era apenas uma pequena folha, uma folha qualquer sem nenhuma identidade, anônima, exceto pela presença invulgar e não esperada. Ao primeiro olhar, flertou-me tímida. Respondi com supresa e desviei os olhos para as partituras da estante. Recompus-me e a encarei pela segunda vez. Estava lá, agora mais luminosa. Parecia um delicado borrão verde sobre o tapete vermelho. Enterneceu-me sua visão delicada e, de repente, as cores ampliaram o meu coração. A sinfonia se iniciava nas cores e me remetia aos acordes de uma peça esquecida, distante. Aproximei-me com solenidade da pequena folha e permaneci em silêncio por instantes. Seus tons de verde me brindavam com o frescor de outras memórias, de outros encontros. Houve um tempo em que todas as folhas pareciam me pertencer, assim eu acreditava. Depois, bem, depois tantas outras coisas que pensei também serem minhas, exclusivamente minhas, me foram subtraídas. Continuei a olhar para a pequena folha. De pintura que era, insinuou a forma e desabrochou como letra. Era arredondada, um quase círculo, uma vogal cuja forma envolveu-me os olhos, o corpo, o labirinto de ossos, o emaranhado de tendões num abraço delicado, terno, inesperado. E assim permanecemos. Algum tempo depois afastei-me e pude ler e entender a sutil mensagem. E abracei o passado, o vozerio das outras crianças, as incertezas e as descobertas da adolescência, os mares de alegrias e os vendavais de preocupações da universidade, os caminhos empoeirados e desérticos das decisões e os infinitos momentos de certeza de que gosto da vida. Eu me distraí, é verdade, e me esqueci de nosso encontro. Porém, quero que saiba: você é o meu presente de Reis!