Arquivo de fevereiro de 2006

28 de fevereiro de 2006

Mardi gras

Libertar-me e ao fascínio de me sentar bem junto de tuas impossibilidades. É como peneirar sonhos e misturá-los ao que restou da paisagem até conseguir massa firme e leal aos nossos próprios temores. Libertar-me e me sentar bem junto aos teus fascínios. É como peneirar paisagem impossível e misturá-la ao que restou dos sonhos até conseguir massa plena de temores, embora firme e leal a nós. Libertar-te, me sentar bem junto à massa de impossibilidades minhas e ser feliz assim.

17 de fevereiro de 2006

Fábrica de sonhos

Insistia em olhar ao redor sem dizer nada. Levantou-se vagaroso e, só então, pude avaliar sua pouca idade. O aposento era abafado, embora limpo. Lá fora, a chuva prodigalizava erosões. Observei-o reclinar-se sobre as almofadas do sofá, exibido e displicente. Aflorou em minha memória o insistente perfume das pequenas e delicadas alfazemas do verão. Ao passear pelos campos, observei os primeiros brotos que desabrochavam e cultivei, em silêncio, um sentimento por algo que iria chegar, pelo que estava em vias de existir. A parceria com o calor me tornava maleável. Olhei uma vez mais o seu pequeno e ainda delicado corpo em desalinho. Quantas paisagens aguardavam o seu olhar? Quantos caminhos aguardavam aqueles pés? Com o fim do verão, tornei-me duro e liso como o vidro.

Tempo, espaço

Impossível escrever o que eu não sabia falar. Precisava, talvez, de mais tempo para lhe dizer tudo. Depois o espaço reservado era exíguo demais para caber a minha letra. Continuo a acreditar que apenas um sorriso bastava.

13 de fevereiro de 2006

Banais

  • Segundo Swedenborg, há paraísos semelhantes ao corpo humano. Eu os imagino com enormes crateras de apetite insaciável e com largas extensões cobertas por fungos, ácidos e sujeira a anunciar doenças. São imagens fortes admito. Porém, não diferem da realidade que tentamos ocultar sob o manto civilizatório.
  • Pessoas, imagens, diálogos, compreensão: tudo pode se transformar numa imensa arena bíblica, com direito a ressentimentos, flutuações humorais, oposições e a longa espera por um breve tempo de paz. A literatura, como a vida, tem destas coisas.
11 de fevereiro de 2006

De deuses, de homens

(para M.L.)

Nas pontas dos pés, a deslizar sobre mundos e homens
a diluir assimetrias
entre o corpo que a vista alcança
e a palavra certa pousada em boca suave:
eis a criança do amor.

Gesto a gesto, opera infinitudes, exorciza infelicidades,
tragédias,
reescreve o doce veneno
de inocentes vilanias às sacrossantas marginalidades.

Eis o menino do amor:
celebrar palavras sem timidez, com justeza e fôlegos,
criar o sentido para as coisas.

Reinventa-se e às ressonâncias do fruto proibido
da narrativa nos porões, nos degraus,
nas vigas, nas cumplicidades.

Da superfície às profundezas,
eis o menino do amor.

5 de fevereiro de 2006

Escaninho - 4

Expus-me à vida e ao que nunca sonhei ser possível. E a realidade simples mudou. Confusão, dúvidas e incertezas assumiram o controle da bússola. Mudanças se fizeram necessárias: eliminei paisagens de longo prazo, dilui velhos objetivos. A vida segue o próprio curso e me prepara para o melhor.

Quem avisa, amigo é

Coleciono e-mails recebidos e não solicitados com mensagens fofinhas, de auto-ajuda, edificantes pps com músicas de elevador e frases atribuídas a Shakespeare, Tagore e Paulo Coelho. Em breve, vou reenviá-las a todos os que testaram os limites de minha paciência com os mesmos. Afinal, amor com amor se paga.

3 de fevereiro de 2006

Envelhecer - 34

Divida o que tem, fale o que sabe, faça o que pode, Asyd.

Envelhecer - 33

Repito, Asyd: o sábio oculta a sua inteligência, o tolo exibe a sua burrice.

Envelhecer - 32

Duas orelhas e uma boca: ouça muito e fale pouco, Asyd.