Fábrica de sonhos
Insistia em olhar ao redor sem dizer nada. Levantou-se vagaroso e, só então, pude avaliar sua pouca idade. O aposento era abafado, embora limpo. Lá fora, a chuva prodigalizava erosões. Observei-o reclinar-se sobre as almofadas do sofá, exibido e displicente. Aflorou em minha memória o insistente perfume das pequenas e delicadas alfazemas do verão. Ao passear pelos campos, observei os primeiros brotos que desabrochavam e cultivei, em silêncio, um sentimento por algo que iria chegar, pelo que estava em vias de existir. A parceria com o calor me tornava maleável. Olhei uma vez mais o seu pequeno e ainda delicado corpo em desalinho. Quantas paisagens aguardavam o seu olhar? Quantos caminhos aguardavam aqueles pés? Com o fim do verão, tornei-me duro e liso como o vidro.