Miniature silencieuse - II

Pela fresta do porão da casa do anjo em que habito, avisto uma laranjeira em sua varanda. Seus frutos bailam na luz e se expandem indiferentes à condição dos humanos. A cada dia o anjo lhe devota cuidados e regas. A todo instante a laranjeira lhe devolve aromas e futuros. À distância, observo-os se fartarem num estranho ritual de entregas e desprendimentos. E, num passe de mágica, restrições, desesperanças e fragilidades, que convivem comigo no cinzento porão, tomam uma expressão cômica e ridícula: sinto-me superior a tudo. Expiro em staccato, como a imprimir força ao meu espaço restrito. Ligeiramente esgotado, inspiro profundamente, para compensar os desperdícios na vida. Estou rindo!

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