Você, eu

Para v.

E uma vez mais, pontualmente, desperto. A escuridão me envolve, apesar dos olhos abertos. O breu turva a visão das paredes e a consciência semidesperta. Outra madrugada enfadonha a me impor escolhas banais: aquietar-me e tentar dormir ou me bater com amarelecidos e corriqueiros desafios.

Abandono-me como de hábito. Escuto sua respiração e me conforto: ao menos alguém dorme. Busco-lhe a silhueta, frustra-me a escuridão. Ajeito o corpo vagarosamente. A experiência insone me assegura: será longa e monótona a vigília à espera da alva tranqüilizadora e de suas luzes. Sorrateiro, tento buscá-las em meu interior. Sua respiração, no entanto, insiste em me manter aqui, atento, velando-lhe o sono. Um desafinado campanário soa. Imagino o outeiro vazio, recortado apenas pela estridência do vento: é a matinta-pereira a prantear seu isolamento. Rio-me das associações, a me confrontar com os medos da infância. Em paralelo, resta você, eu…

Subitamente me acode: qual partícula, qual vocábulo, qual palavra nos liga? O que nos une? Assombro! Busco essa ligação de maneira incerta, temerosa. Começo por arriscar: eu portanto você! Assimilados mutuamente, afastados de todos: conseqüência lógica, irrefutável, efetiva. Mas, pelo exame do vivido em comum, esta é uma verdade parcial, acredito. Neste momento autorizo-me, então, a conjecturar eu e você: existimos sem causa-efeito, como elementos de uma soma, de uma adição. No quotidiano biográfico, quiçá por vezes. Insatisfeito, não esmoreço e insisto: quem sabe eu ou você? A exclusão simplista me tumultua e estremeço. Acelero e angustiado me atrevo: eu sem você. Impossível, inverossímil. O que eu faria; como viveria? Narciso sempre busca espelhos! Arquejante e exasperado finalmente desacato: você sem mim. Inadmissível: simplesmente não concebo. Ou melhor, minha robusta vaidade não o permite!

O suor encharca meu rosto, meus olhos. De novo, ajeito desapressado o corpo. Na solidão ruidosa dos pensamentos, um só desejo: acomodar-me, apaziguar a turbulência da madrugada. Amanhã, seu frescor irá me acolher uma vez mais e isso basta.

Desentoadamente, o campanário volta a tocar.

Um comentário para “Você, eu”

  1. Hanah disse:

    Muito lindo…
    Não cabem palavras…

    um beijo