Somos todos Bebezões

Bombardeados por regras tolas, conselhos “ditatoriais” e fofocas de celebridades esquecemos como ser adultos. É tempo de crescer, diz Michael Bywater.

Eu me imagino ser um adulto, como, presumivelmente, você. Você pensa que, por ter ultrapassado a puberdade e desenvolvido características sexuais secundárias, obtido qualificações e aberto conta num banco, ter se submetido ao escrutínio das leis anti-terrorismo e das leis anti-lavagem de dinheiro e ter aprendido a dirigir, conseguido um emprego e talvez uma esposa e, quem sabe, filhos, e certamente por pagar seus impostos, você pensa ser um adulto.

Por vezes, as coisas o atingem de maneira um pouco estranha. Causa estranheza, por exemplo, sair de uma aeronave e atingir o saguão do aeroporto Heathrow em Londres, e ver, pelo menos, 93 cartazes avisando-o de coisas que não fez ou que não lhe ocorreu fazer.

O fato básico é que você está sendo tratado como um bebê. Você, eu, todos nós estamos na fila de uma campanha de infantilização: nossos gostos, nossas respostas, nosso comportamento, nossos pensamentos pessoais, nossas decisões, nossos hábitos de consumo, nossas filosofias, nossas sensibilidades políticas.

Somos ensinados como pensar. Somos ensinados como fazer. Somos distraídos com cores e movimentos, protegidos, alimentados, nossas respostas são antecipadas e nossa autonomia debilitada por um conteúdo fino, rico, fortemente embasado.

Eis uma simples lista do que está implícito sobre as afirmações feitas sobre todos nós:

  • Somos incapazes de controlar nossos apetites;
  • Não podemos adiar gratificações;
  • Temos pouco sentido do eu, e o que temos é deformado;
  • Não temos uma flexibilidade interior;
  • Somos pré ou sub-letrados;
  • Somos egocêntricos;
  • Não temos habilidade para exercer autonomia responsável;
  • Exigimos constante supervisão e constante controle;
  • Somos potencialmente, senão efetivamente, violentos;
  • Não temos sensibilidades sociais além das tribais;
  • Não temos discernimento.

Ainda queremos concordar com isso? Ainda queremos ser bebezões?

Meu avô nasceu em 1888 e não tinha um estilo de vida. Ele não necessitava ter um. Ele tinha uma vida.

Ele tinha um chapéu, um carro, uma esposa e dois filhos, um mordomo, uma empregada e uma babá para as crianças, e o mordomo tinha um cachorro e o cachorro tinha uma úlcera e vivia em um canil.

Meu avô lia principalmente Charles Dickens. Por vezes saia de férias. Sua casa era mobiliada com móveis.

Nela havia algumas coisas exóticas, trazidas de lugares exóticos. As coisas mais exóticas eram entalhes africanos e utensílios de cobre de Benares. Os entalhes africanos foram trazidos de uma guerra, possivelmente da dos Boer.

Os utensílios de cobre foram trazidos de Benares por um amigo de meu avô, Dr. Chand, seu vizinho, um brâmane de Benares.

Dr. Chand também não tinha um estilo de vida. Na época, ninguém tinha um estilo de vida, pois não havia ninguém para dizer isso e, de qualquer forma, eles estavam muito ocupados com suas vidas.

Eram adultos. Eles se ocupavam de seus trabalhos. No caso de meu avô, era visitar pacientes e torná-los melhor, sempre que possível. No caso do Dr. Chand, ocorria o mesmo, pois ele também era um médico.

Suspeito de que a vida de meu avô era real num sentido que a do meu pai quase não foi e a minha não é de modo algum.

A diferença crucial é a falta de auto-consciência de meu avô, e que a auto-consciência é uma marca registrada dos perpétuos adolescentes, infantilizados que nos tornamos, monstros de introspecção pairando contraídos no limite da auto-obsessão, ocasionalmente conscientes de que a vida, que existe apenas para ser examinada, é quase administrável; quase, na verdade, uma vida.

É uma preparação para uma vida. A vida consistentemente introspectiva de um Bebezão é tão simulacro como a vida no Big Brother.

Para manter esse simulacro precisamos de ajuda. E precisamos dessa ajuda, pois ela está disponível.

É o velho paradoxo. Precisamos de diversão em nossas vidas fragmentadas e solitárias, pois as distrações disponíveis tornaram nossas vidas fragmentadas e solitárias.

E precisamos de conselhos de estilo de vida em revistas e web sites e suplementos de jornais e consultores de saúde e personal trainers exatamente porque somos importunados durante todo o tempo por revistas e web sites e suplementos de jornais e consultores de saúde e personal trainers…

Se uma das marcas da vida adulta é a autonomia, então um dos requisitos da autonomia é ser deixado sozinho.

Meu avô não era importunado. Uma vez que completou 21 anos, ele era um homem, um adulto, e ninguém o atormentava com oportunidades que estava perdendo, misérias que não conhecia, aspirações, inadequações.

Ninguém o dizia como ser bom de cama, dava dicas de beleza, o que seu carro dizia dele, o que deveria comer, quanto deveria beber, o que sua casa dizia a seu respeito, quanto os utensílios de cobre de Benares podiam ser exagerados, onde deveria ir nas férias, quais produtos sazonais seriam da moda, como seus ternos deveriam parecer.

Ele sabia algumas dessas coisas, e não se importava com outras, pois ninguém lhe chamava a atenção. Ele sabia como seus ternos deveriam parecer: calças, paletó, colete, todos feitos do mesmo tecido.

Ele sabia sobre beleza: barbeava-se. Ele sabia o que deveria comer: café da manhã, almoço, jantar. Ele provavelmente não tinha idéia de que “bom de cama” se quer existia, ou de que o mobiliário fizesse algo além de mobiliar, ou de que onde fosse nas férias tivesse qualquer significado, ou de que seu carro não dissesse nada sobre ele, exceto “Oh, lá vem o Dr. Bywater, reconheço seu carro”.

Mas os Bebezões não têm tal autonomia e discutem até a morte; nem aprenderam o truque adulto de simplesmente ignorar falatórios. Ao invés disso, o Bebezão tenta concordar.

Acreditando, quando dizem para ele que é infeliz, ele também acredita que a cura advêm dos falatórios que lhe oferecem.

A casa, o mobiliário, o carro, as férias exóticas, os novos vinhos a experimentar, a lula e os vermes e a porcaria estrangeira cozida em geléia com molho sob a carne, vegetais especiais como algas ou tumores, melhor seria se fossem jogados fora; lugares desconfortáveis para ir, maneiras desconfortáveis de chegar lá (”Viaje pela Amazônia nas costas de uma Anaconda”), o sexo desconfortável e desanimado (”Temos que praticar sodomia?”), a vida desconfortável e desanimada, fundada no crédito, construída no débito, Carol Vorderman sorrindo enquanto o corretor de imóveis entra e o Oficial de Justiça se prepara para uma outra ação judicial.

E é todo um mundo de faz-de-conta, um conjunto de símbolos de status notáveis apenas por simbolizar o status de alguém… exceto que quando há apenas status para o Bebezão na Era da Diversão, então os nossos símbolos são o nosso status.

Vivemos em uma dieta de sombras e apenas podemos imitá-las, cercados num chiqueirinho esperando ser distraídos.

Realmente, é complicado ser um adulto. A grande novidade sobre ser um Bebezão é que é tão fácil e tão recompensador, e todo mundo pode simplesmente ser deixado de lado.

Uma vez que se tenha abraçado os “ismos” que caracterizam o credo de modernidade do Bebezão — individualismo, relativismo, voluntarismo — e ultrapassada a barulhenta e decantada infância auto-validada que inevitavelmente se segue, então estamos além da crítica.

Qualquer um que diga de maneira diferente simplesmente não nos entende, e além disso, está absolutamente errado.

Ser adulto não é algo nada confortável. Apenas por um momento, vamos examinar a questão e dizer que uma das qualidades do ser adulto é o que os romanos chamavam discrimen e o que talvez pudéssemos chamar de “discernimento”, embora o conceito não o cubra inteiramente.

Discrimen é a habilidade de julgar uma situação e tomar uma ação correta sem ser desviado por considerações periféricas. Os marinheiros o chamariam de “marinheiraria”.

Os cirurgiões falam de determinação. Em todos os casos, o discrimen é saber o que fazer nas circunstâncias, mesmo se não houver garantia de sucesso. Mas se o discrimen é uma virtude cardinal do adulto, os princípios do infantilismo operam contra. O discrimen exige o julgamento correto; mas a idéia de algo “correto” está em profundo conflito com o individualismo (que diz que eu somente posso dizer que o julgamento esteja correto para mim).

Está em conflito com o relativismo (que diz que os outros podem ter idéias diferentes, que são certas para eles) e com o voluntarismo (que diz que aquelas idéias diferentes são tão válidas quanto as minhas, porque também foram escolhidas).

A infantilidade, prolongada indefinidamente, é também o prolongamento indefinido de uma (falsa) promessa.

Nunca é tarde demais… nunca é tarde para se agitar, cadavericamente, no palco, cantando “Can’t get no satisfaction” (Não se tem satisfação).

Nunca é tarde demais para se livrar da antiga esposa e encontrar uma nova. Nunca é tarde demais para cometer o grande assassinato, para atingir os objetivos, para encontrar os sapatos perfeitos, para se conseguir o “tanquinho” perfeito, o modo de andar, a compleição, a bunda, os peitos ou as coxas. Nunca é tarde demais para se conseguir o pênis perfeito, ereto com um Viagra lucrativamente obtido pelo correio, nunca é tarde demais para dar a ela o orgasmo perfeito, conseguir a casa perfeita, com a mobília perfeita, tirar as férias perfeitas, dirigir o carro perfeito…

Como o corpo decai inevitavelmente (a mente já foi faz tempo, é claro; mas quem precisa dela?), a perpétua infantilidade brilha sobre o reumatismo, as dores, os rangidos e a flacidez. Enquanto as oportunidades diminuem, a infantilidade perpétua nos oferece a ilusão, em termos simples, com um “pegue e misture” de espiritualidade, auto-desenvolvimento, anjos e deusas, diversão e aspirações.

Enquanto o tempo se esgota, aquinhoando sua fração irreversível, a infantilidade perpétua nos oferece… o relógio perfeito: à prova de choque, à prova d’água, anti-magnético, um movimento perpétuo que fala tudo sobre nós exceto a única verdade intolerável: a de que já o tivemos e que caminhamos para o esquecimento, tic por tac.

Tivemos que desistir enquanto caminhamos, nós os Bebezões. E não fizemos um trabalho satisfatório. Queremos (não queremos?) crescer. Como? Aqui está a resposta simples: observe cuidadosamente, pergunte o porquê, e observe suas maneiras. É simples assim. Como seria o mundo se todos fizessem isso?

Ele seria adulto.

Como ser um adulto

Não se sinta ofendido. Estar ofendido (ou ofender-se, ou reclamar de “inadequação”) não é uma resposta adulta. Apenas as crianças acreditam que o mundo deve se conformar ao seu modo de vê-lo; uma espécie de pensamento mágico que apenas pode levar à guerra, ao terrorismo, aos débitos a curto prazo não administráveis e à aliança Blair/Bush.

Desconfie de qualquer coisa cativante, como o Eixo do Mal, slogans de advertência ou slogans políticos. A atratividade existe para evitar pensar e para disfarçar os motivos. Adultos podem pensar por si mesmos.

Ignore celebridades, exceto quando estiverem fazendo aquilo pelo que são cultuadas: atuar, jogar futebol, etc. A habilidade não confere discernimento moral, político ou intelectual. (Exceto no caso de escritores. Escritores sabem tudo e podem ensiná-los impunemente.) Se uma celebridade não for cultuada por fazer algo, mas apenas por ser uma celebridade, sorria polidamente, mas não dê nenhuma atenção.

Não devemos assumir que as forças do mercado irão decidir de maneira sábia. O mercado é manipulador e infantilizador.

Considere as suas próprias motivações. Podemos reclamar por sermos tratados como crianças, mandados, mantidos longe da verdade, pajeados e explorados… mas não concordamos com isso? Não pode a recompensa ser realmente a própria infantilização?

Autonomia é a marca primária do ser adulto. Bebês, crianças e adolescentes não têm autonomia. Não queremos estar no mesmo barco.

Suspeite da administração. O seu objetivo é liberar a organização de fazer o que deve ser feito: mas o triunfo dos administradores — advogados, contadores, administradores profissionais — significa que inúmeras organizações agora acreditam que o que eles têm a fazer é administrar a si próprios. Essa é uma atitude profundamente infantil.

Não se ame incondicionalmente. Esse tipo de amor é para bebês e provém de suas mães. Ignore a moda, especialmente nas roupas. Você não precisa parecer um adolescente para sempre.

Nunca faça negócios com uma empresa que ofereça “soluções”, como “soluções de mobiliário ergonômico que minimizam o estresse postural associado ao sentar” (cadeiras) e “soluções enviadas pelo correio” (envelope comercial). A palavra “soluções” sugere que temos um problema, mas como somos adultos, isso fica para nós decidirmos.

Denuncie o relativismo em todos os momentos. Gritar “injustiça” é infantil. Exigir respeito sem merecer é infantil. Não tenha medo da seriedade. Os bebês não são autorizados a serem sérios.

Observe a sua linguagem. Há mesmo muita diferença entre a linguagem de uma criança de seis anos com uma peruca assustadora e as galochas de seu pai, gritando “Eu sou o poderoso” e a de um pretenso adulto exigindo ser chamado de o “Respeitado Czar de Tony Blair”?

Oculte. Adultos não devem ser eternamente resposáveis, enquanto os instintos do governo e das grandes empresas, ambos, até mesmo por sua natureza, grandes infantilizadores, têm que manter a atenção sobre todo mundo durante todo o tempo.

Coma. Não há nada mais infantil do que ter exigências dietéticas.

Nunca vote e nem faça negócios, ou seja agradável com quem quer que use as palavras “pessoas comuns”.

Extraído de “Big Babies”, por Michael Bywater, publicado por Granta em 2 de novembro de 2006.

Tradução do artigo “We’re all big babies”, publicado em 22/10/2006 no Telegraph.co.uk. O texto foi citado por Carla Rodrigues e Pedro Doria, no site “no mínimo”.

Um comentário

  1. O que aconteceu com vocês?
    preciso lê-los com frequência.
    Por favor não abandonem este blog
    Abraços

    Mininim
  2. Bom retorno amigos…

    Abraços Luminosos

    Hanah
  3. Bom dia!

    Encontrei o seu blog e resolvi escrever para enviar a referência do meu site - www.seradulto.com
    é sobre o meu doutoramento em Sociologia, tema: “O que é ser adulto em Portugal?”, veja se lhe interessa e se puder divulgue sff.
    Obrigado.

    Filomena Sousa
  4. Olá Eric e Moacir…

    Fiz uma homeagem à vocês no meu outro “novo” blog SOBRETUDO…

    Passa lá…

    Beijão

    Hanah

Escreva um comentário

WP Hashcash