Os sete transtornos de personalidade capitais

Com a luxúria agora rotulada de “compulsão ao sexo” e gula virando “transtorno alimentar”, não é de se espantar que os católicos estejam incertos quanto aos sete pecados capitais.

Eles costumavam ser chamados de sete pecados capitais: luxúria, gula, avareza, preguiça, ira, inveja e soberba. Eram capitais porque levavam à morte espiritual e, portanto, à condenação.

Agora, alguns teólogos não estão certos de onde fixar a linha sobre os pecados, ou mesmo, de fato, se há uma linha a ser fixada. Em nosso mundo terapêutico sentimentalista, a idéia de um “pecado mortal” que condena o pecador ao Inferno se mostra demasiado fatalista, até mesmo irracional. Hoje, a noção de culpa pessoal, que servia de base para a idéia dos sete pecados capitais, parece existir apenas de uma forma caricaturada. A cultura Ocidental pode apenas compreender o ato de pecar como um sintoma de uma lamentável doença psicológica. Comportamentos já denunciados como pecaminosos são hoje discutidos através da linguagem da terapia ao invés da linguagem da moralidade. Os velhos pecados capitais tendem a ser vistos como transtornos de personalidade que requerem tratamento, ao invés de transgressões que merecem punição.

Num clima destes, surpreende que empresários da Igreja Católica queiram re-etiquetar o pecado, e tenham decidido remendar uma lista de supermercado de novos “nãos” para o consumidor do século XXI? Modernizadores na Igreja Católica acreditam ser mais fácil fazer as pessoas se sentirem culpadas sobre o impacto delas no meio ambiente do que sobre cometerem um dos sete pecados capitais. Pensam que instituições religiosas podem recuperar um pouco da sua credibilidade se se reinventarem como os promotores de uma virtude ecológica, mantendo controle de perto sobre os eco-pecados dos poluidores. O meio ambiente se destaca proeminentemente em uma nova lista de pecados modernos desenhada pelo Vaticano. De acordo com a autoridade do Vaticano Monsenhor Gianfranco Girotti, a poluição ambiental é um dos mais perigosos “novos pecados”, ao lado da manipulação genética, excesso de riqueza, tráfico de drogas, experimentações moralmente contestáveis, infligir pobreza às pessoas e violações dos direitos humanos.

Os pecados de Girotti ocupam um plano moral diferente do dos sete pecados capitais. Sua lista foi encontrada por acaso como parte de um exercício de relações públicas. A invenção de novos pecados em uma sessão de brainstorming revela muito a respeito da atitude oportunista da Igreja sobre questões doutrinais. Os pecados tradicionais eram parte de um universo moral que enfocava o relacionamento entre os seres humanos e Deus; a nova lista atualizada é uma declaração cultural sobre o que é “comportamento aceitável”.

A coisa mais surpreendente a respeito da nova lista de pecados é que ela reverte o relacionamento moral entre Igreja e sociedade. Historicamente, a missão da Igreja era prover ensinamentos que podiam oferecer orientação moral para a sociedade. Recentemente, porém, a Igreja foi forçada a tomar a defensiva — e agora, ao invés de converter as pessoas para a sua perspectiva moral, ela começou a absorver muitos dos valores seculares em moda em nossos tempos. É claro, a religião sempre foi adaptada às novas condições. Mas hoje não se adapta simplesmente; ela toma seu mote da imaginação secular ao invés de tomar do divino. Os novos pecados são bons exemplos de valores seculares que a Igreja cooptou num desesperado lance para se manter relevante.

De algum tempo para cá, a Igreja Católica e outras igrejas cristãs estiveram dolorosamente conscientes de quão difícil é para elas exercer autoridade moral. A Igreja freqüentemente parece incerta e defensiva a respeito de questões morais. Então, por exemplo, protestantes ameaçaram armar uma confusão durante a proposta visita papal para a Irlanda a não ser que o Papa Bento XVI concordasse em encontrar pessoas que foram sexualmente molestadas por padres. Aqui, a vítima de abuso, ao invés da autoridade papal, alega o direito à moral elevada. Em muitas partes do mundo ocidental, autoridades católicas foram forçadas a expulsar padres por manterem contato íntimo com crianças, em resposta à pressão e desconfiança públicas. Um poderoso senso de defensividade moral, combinado com uma consciência de que seus ensinamentos parecem não ter relação com o mundo moderno, dão mostras de que a Igreja acha difícil afirmar sua autoridade com qualquer convicção. Como resultado, muitas igrejas se sentem cada vez mais incomodadas em pregar os sete pecados capitais aos seus rebanhos.

A Igreja Católica parece acreditar que pode revitalizar seu relacionamento com seus fiéis e o público pregando então as virtudes da responsabilidade ambiental. Pelo que se fala, o Papa planeja usar seu primeiro discurso às Nações Unidas para advertir o mundo a respeito do aquecimento global e promover “salvar o planeta” como tarefa moral para todos os Católicos. O Papa rapidamente tentou se associar às causas verdes. E agora temos, do âmago do coração do Vaticano, a proposta de que o pecado em si seja intimamente ligado à responsabilidade e consciência ambientais.

No entanto, não é apenas o Vaticano que está buscando uma nova, moderna estrutura moral. Quase imediatamente após o Vaticano ter publicado sua nova lista de pecados modernos, os líderes da Igreja Batista Sulista dos Estados Unidos anunciaram que começarão a discutir a questão da mudança climática muito seriamente. Alguns líderes Batistas alegam que sua conversão ao ambientalismo é resultado de revelação divina. Na realidade, como Girotti, eles querem ter certeza de que continuarão conectados ao clima cultural de nossa época.

O fato de modernizadores do Vaticano e pastores Batistas Sulistas terem “visto a luz” nas causas verdes é uma evidência da influência extraordinária que o ambientalismo exerce sobre a cultura contemporânea. Numa época em que instituições tradicionais acham difícil se conectar com temas populares, o ambientalismo ainda é capaz de comunicar idéias a respeito da responsabilidade humana apelando para um senso de certo e errado. Além disso, seria errado ver o ambientalismo simplesmente empurrando o pecado tradicional de lado — a idéia de pecado, e a noção de responsabilidade moral que a sustenta, foi constantemente erodida e degradada durante um longo período de tempo.

Esvaziando o pecado de sua carga moral

Sociedades seculares sempre se sentiram moralmente desconfortáveis, com a idéia dos sete pecados capitais. O Iluminismo substituiu a noção de pecado, considerado uma ofensa contra Deus, com a idéia de crime: uma ofensa conta outras pessoas. Mas racionalistas seculares ainda compartilhavam com religiosos a crença de que indivíduos são responsáveis por suas ações incorretas. Desde o fim do século XX, porém, nos sentimos alienados não só de qualquer universo religioso, mas também da idéia de responsabilidade moral ou individual, e assim achamos difícil descrever aspectos do comportamento humano como “pecaminosos”. Hoje, parece que não há mais pecadores; existem apenas personalidades viciadas.

Considere a luxúria. Aqueles que já puderam ser rotulados desejosos são agora descritos como “compulsivos sexuais” necessitando de terapia. A gula foi transformada em compulsão alimentar: aparentemente, glutões não precisam mais se fartar; eles estão simplesmente sofrendo de um dos tantos transtornos alimentares. Alguns na indústria da compulsão insistem que a alimentação compulsiva é uma doença psicológica com uma provável causa biológica. Como alternativa, a gula é vista como uma doença que chamamos de obesidade.

A ira é, por alguns, considerada ser a mais poderosa compulsão emocional. Novas condições como a “violência no trânsito”, “fúria diante do computador”, “fúria consumista”, “torcidas enfurecidas” e “fúria no embarque de aeroportos” sugerem que a doença da ira pode afligir indivíduos em diversos ambientes. O lobby terapêutico alega que a solução para condição de raiva é suportar o estresse — ou terapia do controle da raiva. As chamadas compulsões a certas emoções freqüentemente recebem o rótulo médico de “transtorno do controle do impulso”.

Enquanto isso, avareza e inveja foram remodeladas como conseqüências inevitáveis de nossa sociedade consumista moderna, e são também diagnosticadas algumas vezes como transtornos do controle do impulso. Aparentemente, a nossa é uma sociedade compulsiva que compele indivíduos a serem invejosos uns dos outros. “Compulsão de gastar”, “compulsão de comprar”, “compulsão de jogar” e “affluenza” — uma obsessiva e invejosa vontade de ter o que os outros têm –: todas são representadas como transtornos comparáveis ao alcoolismo e à drogadição no seu impacto danoso no paciente.

A preguiça também foi medicalizada. A criação de condições como a síndrome de fadiga crônica convida as pessoas a criar significado para a lassidão através de um rótulo médico. O transtorno de déficit de atenção e hiperatividade fornece uma explicação multiproveitosa do por que algumas pessoas são relutantes em focar e se concentrar. E hoje, a preguiça parece não necessariamente ser uma condição totalmente negativa. Algumas formas de preguiça são celebradas como antídotos para nossa cultura supertrabalhora, esgotada pelo estresse e enlouquecida pelo consumismo. O trabalho duro é freqüentemente descrito como um empreendimento arriscado hoje em dia; aparentemente você corre o risco de se tornar workaholic se levar o seu emprego muito a sério. A noção de que o trabalho nos adoece promoveu o endossamento positivo da preguiça: na França, um livro chamado Bonjour Paresse (Bom dia preguiça) se tornou um bestseller em 2004, vendendo mais de 35.000 exemplares nas suas poucas primeiras semanas de lançamento.

E finalmente chegamos ao pecado que a Igreja já considerou ser o mais capital de todos: orgulho. De todos os velhos pecados morais, o orgulho é o único que foi completamente reabilitado como uma coisa boa. É por isso que o orgulho nunca é diagnosticado como um transtorno. Hoje em dia, virtualmente todo problema social e psicológico torna culpada a baixa auto estima. A solução para o baixo desempenho educacional, gravidez na adolescência, anorexia, crime ou desabrigamento é aparentemente levantar a auto-estima da vítima. No nosso mundo individualista, a sociedade continuamente incita as pessoas a se levar a sério demais, a se orgulhar de tudo que fazem e tudo que são, não importa quão mínimas ou acidentais essas coisas possam ser. Longe de ser um pecado, o orgulho se tornou uma das virtudes primárias da nossa era.

Nas décadas recentes, os pecados capitais foram transformados em aflições pessoais. É por isso que a invenção do “eco-pecado” representa um desenvolvimento tão notável na sociedade moderna. É a sua bem sucedida reabilitação da idéia da culpa humana que torna o eco-pecado tão atraente para o Vaticano e outras religiões. No entanto, a eco-espiritualidade não pode compensar a perda da autoridade moral tradicional, já que não é fundamentada numa apreciação da função singular do ser humano e na responsabilidade moral de desenvolver qualidades humanas. Ao contrário, esta é uma forma de pecado fundamentalmente misantrópica e direcionada contra o exercício livre e pleno da imaginação humana. De fato, ao castigar o “impacto humano” no planeta, o eco-pecado questiona a capacidade única das pessoas de atuar como agentes moralmente responsáveis e de moldar o mundo ao redor delas. Tal visão moral é ainda mais confusa que a teologia da Idade das Trevas. Pelo menos eles tinham Céu e Inferno; tudo o que temos agora é gás carbônico…

Tradução do artigo “The seven deadly personality disorders”, por Frank Furedi, em spiked, 12/03/2008.

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