Algumas palavras, as de sempre, me ajudam a construir uma simples casa. Com disciplina, alinho cada estrofe, meço rimas uma a uma, diluo todos os versos e negocio métricas. Depois, na varanda, paro os relógios em companhia de chuvas miúdas e teias de indecifrável escrita.
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Baldio
quarta-feira, 4 de janeiro de 2006Essencial
terça-feira, 27 de dezembro de 2005Carrego um outro em mim. Eu que não tenho mãos, exponho dele certezas de gestos brandos em constante exclamação diante de tudo. O outro em mim se desbota quando me recuso a sorrir frente aos mistérios dos homens e de suas falas. Carrego esse outro em mim. Ele me ensina a decifrar enigmas com a leveza dos que insistem em afastar sombras do caminho. Eu faço dele suporte para as minhas reiteradas espirais de dúvidas. Embora eu não tenha mãos, o outro em mim me faz reconhecer a fugidia presença de mundos em cada palavra como espelhos antigos a desvendar o eterno. Sei-me instável em percebê-los, sei-me descuidado em reverenciá-los. O outro em mim trespassa-me os pensamentos e evoca as intenções das coisas e das palavras. E me acolhe e me sinaliza horizontes diáfanos e partilha sabedorias miúdas. O outro em mim habituou-se a me dizer: fica em paz desde sempre.
Escrever, escrita, escritor
sábado, 17 de dezembro de 2005Escritor é quem escreve palavras, eu as rabisco. Rabisco-as anônimas como pedaços de paisagens interiores. Rabisco letras e acentos gráficos até que o desenho simples se faça cenário provocante e, depois, contemplação. A cada rabisco, a cada gesto, as paisagens se aprumam para serem vistas, não lidas. Livres de ostentação e de pressa, os rabiscos pairam e apontam fatias de mim.
Arquivo
sexta-feira, 16 de dezembro de 2005Busquei-te as mãos e aconcheguei solidões e mistérios. E espreitei palavras, as mais simples e pálidas, e suportei a dor. Para as feridas de ausências, tua voz se fazia bálsamo e, para mim, bastava. Assimilei regras, descartei papéis e eliminei a imensidão de gestos. Desta vez, o silêncio será pousada e alquimia para abreviar vazios e ampliar o tempo das colheitas.
Previsível
quinta-feira, 15 de dezembro de 2005Dediquei-lhe palavras com finas gradações luminosas, puras e emocionadas, que reverberavam plenas até mesmo diante de sua lembrança. Minhas palavras silenciaram. São as marcas da época.
Amsterdam, Salônica, Ahmadabad, tanto faz
sábado, 22 de outubro de 2005(da série Monólogo interior)
Aprendi com silêncios e desprezo multidões. Apenas rompo auroras e alinho-me com as pedras: sem discursos, apenas ecos. Tanto faz. Ser ninguém, tropismo para o silêncio. Se acumulo aridez é por inércia natural e desejo íntimo de apenas ouvir-lhe a respiração, uma súbita alegria. Partilhar companhia é profetizar decepções. Desde o Mediterrâneo aprendi a fugir de reconhecimento: conhecer é sempre perigoso. Silêncios fortalecem. Palavras anemizam. A erudição é desconfortável. Na quietude tosca, tateio o solo e, sem etiquetas, organizo estratégias de conforto. Em meus olhos, repousam o sol e a lua. O fogo alimenta minha boca. Nos ouvidos acenam as direções do espaço e acolho ventanias, equilíbrios e atmosferas. Auroras conferem aromas. O sabor acre da solidão é apenas mais um sabor. Tanto faz. A essência da terra se exibe em minha aparência pétrea: transformações exigem riscos e suores. Eis a vida: tramas, urdiduras, padronagens, cores, véus, tecidos, mortalhas, o torvelinho devorador da teia de aranha. Aqueço-me no silêncio. Multidões vociferam rebeldias. Não tenho mãos e, por isso, reconheço a mentira e suas essências ocultas: teia, mira, entra, reta, tina, rima, menta, mate, mitra, tema, reina, trina, teima, neta, rena, time, meta, rema, trame, tira, tina, teimar, minta! Tanto faz. O tempo é convenção, a eternidade, consciência. Silêncio: leio, ecos, cone, lince, selo, néscio, íleo, sino…
Despertar
domingo, 16 de outubro de 2005Ouvi a chuva, descobri harmonias e me fartei de tranqüilidades ao olhar seu brilho generoso e livre. Aos ecos e borbulhos preparo os olhos com a simplicidade de gestos e alfabetizo minhas mãos com palavras ditadas pela brisa.
Presença de prazer
domingo, 16 de outubro de 2005Convido palavras para celebrar instante de visível poesia.
Assomam desordenadas:
crianças à espera de reconhecimento, de mérito.
Tão frágeis, tão curiosas,
tão inquietas.
Num emaranhado de cipós, se alternam,
me prendem, se espalham belas e precárias.
E, vicejam qual anônimas floradas simples,
doces na matéria,
prazerosas no estar.
A escrita cheira a mato.
É nuvem de outros tempos,
de outras latitudes de mim.
Anyada buena
quarta-feira, 5 de outubro de 2005Não é a palavra
nem o violino
que flutua
parece outro tempo
que nasce
sem limites
infinito
mas não
é outra luz
a sustentar
ligeirezas
como este
poema.
Receituário
terça-feira, 13 de setembro de 2005Incitar a fala
Excitar a escuta
Numa oficina de palavras, remover
as travas, acalmar as horas
de tensão dos dias.
Quero-as em repouso no meu ser
a clarear singelas
o mistério
dos minutos, dos segundos, dos suspiros
a indicar a porta de saída
para o o relógio da vida
a indicar a porta de entrada
para a vastidão dos sonhos
A fala incita
(discreta e breve)
A escuta excita
(escandalosa e longa)
A língua abolida, a atenção contente:
para avistar paisagens eu coleciono palavras.