Arquivo da categoria ‘Etimologia’

28 de agosto de 2004

Arrastar, puxar (lat. trahere, tractus)

Foi vigorosa a atração que senti ao te ver. Tua silhueta me arrastou como um trator, ora me contraindo qual novelo de linha, ora extraindo minhas forças à exaustão. Retraído por tua ausência, descontraído por tua presença, tornaste-me vulnerável e debilitado. Subtraído da alegria, num momento distraído te propus um trato: dá-me teu retrato! Esse seria um conforto por não te saber por perto… algo como distração. Bobagem, disseste. A abstração me faria sofrer mais! Era esse o tratamento que merecia por te julgar atraente? Abandono-me intratável, tentando extrair da confusão interior algum traço de auto-estima. Só me resta pegar um trem para Pasárgada! Misericórdia, Bamherzigkeit, pobre coração…

9 de agosto de 2004

Alefbet I

Birra: s.f., quando a gente quer, quer, quer.
Garoto: s.m, teimosia diária.
Gostoso: s.m., muitos e longos abraços.
Lágrima: s.f., calda dos olhos.
Pele branca: s.f., Barminán, é um perigo no sol.

7 de agosto de 2004

Anotações de etimologia - 2

O ato de ver, em latim, se diz videre, particípio visum, com radicais v(e)-, vist-.

Assim, o que se vê é visível e, se de antemão, previsível. Quem pode ver adiante é um vidente. E quem prevê faz uma previsão. Fica desprovido quem não viu antes. E se algo ou alguém convoca o meu olhar é vistoso. E se o olhar for hostil é inveja (invidia).

Mas o bom mesmo é ir ver alguém, ou seja, visitar alguém!

3 de agosto de 2004

Gloßário: filtrar

O vocábulo é composto a partir de filtro — aparelho próprio para purificar líquidos –, palavra usada pela alquimia, derivada do lat. tard. filtrum, feltro, e esta do francico filtir. Os filtros eram originalmente feitos de tecidos de lã com pêlos, isto é, de feltro, e mais tarde por um tipo de papel feltrado. Assim, filtrar tem o sentido de separar, coar, purificar, através dos poros de um corpo sólido.

Filtro tem uma segunda acepção em português, de encantamento ou bebida mágica que despertava o amor, poção do amor. Este deriva do lat. philtrum, por sua vez derivado do gr. philtron, este originado do verbo phileô, amar.

1 de agosto de 2004

Gloßário: putrefazer

O vocábulo deriva do lat. putrefacio, -feci, -factum, tornar podre, deteriorar, formado de putreo e facio (fazer, causar, criar).

Putreo, -ere, estar podre, deriva de puter, putris, podre, por sua vez formado a partir de puteo, -ere, com raiz pu- do sanscr., que significa feder e forma também o latino pus, origem do português pus.

O verbo feder deriva do lat. f(o)eteo, -ere, formado com a raiz dhu- do sanscr. dhumas, fumaça. Esta raiz forma o lat. foedus (detestável, horrível), fumus (fumaça, vapor), o ingl. dust (pó, poeira, cinzas), o gr. thuô (oferecer aos Deuses, sacrificar).

Além da fétida fumaça que o podre exala, pode-se oferecer aos Deuses seus restos mortais, suas cinzas, que retornam à terra. Pois, para os gregos, a Terra é uma divindade, Gaia.

26 de julho de 2004

Gloßário: decantar

Significando verter um líquido sem agitar o sedimento, verter de um recipiente para outro, o vocábulo deriva do lat. medieval dos alquimistas decanthare, composto da raiz de- e canthus.

Canthus, anel de ferro ao redor de uma roda de carro, aro, roda, e mais tarde designação para bico de vasilha, pode ter derivado do gr. kanthos — que, além de aro, significa também pote, vaso, ou canto do olho. Assim, decanthare significa despejar a partir do bordo de um vaso, do bico de uma vasilha.

Talvez canthus também tenha originado o substantivo português canto, pedra grande, que deu origem a canteiro. Já canto no sentido de som musical deriva do lat. cantus. E o verbo canto, -are, cantar, se origina do verbo cano. De cantare se forma decantare, que origina decantar, celebrar em cantos ou em versos, louvar, enaltecer.

Anotações de etimologia - 1

Escolher grãos de um cereal, em latim, se diz legere, particípio lectus.

No português, a imagem para a escolha de letras e palavras resultou no verbo ler, cuja raiz latina completa é identificada no derivado legível.

Portanto, a colheita e a seleção de leituras provisiona alimento para o espírito.

14 de julho de 2004

Gloßário: amalgamar

Fazer amálgama, liga de metais em que o mercúrio constitui um dos elementos. Amálgama deriva do lat. dos alquimistas amalgama, por sua vez originado do árabe al-malgama.

É incerto, mas amálgama pode ter origem através do gr. malagma, do verbo malassô (tornar leve, suave), por sua vez derivado de malakos. Malakos também é origem do vocábulo latino mollis, origem do português mole.

Dos metais mais comuns, mercúrio (Hg) é o único líquido em temperatura ambiente. O nome latino do metal é hydrargyrus (água de prata). Talvez daí a origem de amalgamar passar por malassô. Ainda que o metal seja pesado, ele é líquido, mole.

Para os romanos, Mercurius é o mensageiro dos Deuses, o Deus do comércio e da comunicação. Mercurius é, para os gregos, Hermês Trismegistus, o autor da civilização, invertor da escrita, arte, ciência e religião. O Deus se associa simbolicamente ao elemento ar, por reger os processos do pensamento, das idéias, das imagens. Daí novamente amalgamar aludir ao malassô. O ar, assim como o pensamento, é leve.

De qualquer forma, amalgamar é processo para tornar o mercúrio sólido, através da reunião deste com outro elemento.

8 de julho de 2004

Gloßário: mania

O vocábulo deriva do lat. tardio mania, -ae, originado do gr. mania (loucura), por sua vez formado a partir do verbo mainomai (enraivecer-se, ficar furioso).

Loucura. Etimologicamente, o ato de enraivecer-se, de enfurecer-se.

Interessante observar que, em latim, além de mania significar loucura, Mania para as crianças era um nome de “bicho-papão”. Na religião dos romanos, a mãe dos Lares era chamada de Mania. Mania, -ae é o feminino de Manius, -i, e ambos derivam de mane, do antigo manus (bom). Manes, -ium também deriva de manus, designando bons espíritos.

Lares eram divindades adoradas em Roma. Originalmente seres humanos elas próprias, viveram na Terra e, tornando-se espíritos puros depois da morte, pairavam ainda sobre a habitação em que uma vez moraram para vigiar sobre sua segurança e para guardá-la com cuidado, assim como um cão fiel cuida dos bens de seu dono. Haviam diferentes classes de Lares: Urbani protegiam cidades, Familiares protegiam casas e famílias, Rustici protegiam o campo, Compitales os atalhos, Marini o mar, Viales protegiam as estradas etc.

De acordo com o escritor romano Apuleio (circa 120-180 d.C.), os daemonis que uma vez habitaram, como almas, corpos humanos, eram chamados Lemures — este nome então designou, em geral, o espírito separado do corpo. Tal espírito, se adotava sua posteridade — se tomava posse, com força positiva, da residência de seus filhos — era chamado Lar familiaris. Se ao contrário, por causa das faltas cometidas em vida, não encontrava no túmulo um lugar de descanso, ele aparecia para os homens como um fantasma; inofensivo para os bons, mas terrível para os mal intencionados — como um “bicho-papão”. Neste caso era chamado Larva. Porem, como não havia um meio de apurar precisamente qual seria a sina de uma pessoa falecida, se havia se tornado Lar ou Larva por exemplo, era costumeiro dar ao morto a denominação geral de Manes.

Terá a loucura associação com os fantasmas de nossos ancestrais?

7 de julho de 2004

Gloßário: considerar

O vocábulo deriva do lat. considero, -avi, -atum, composto de pref. con- e sidus, -eris (grupo de estrelas, constelação).

Contemplar as constelações, observar as estrelas unidas em figuras. Assim, a astrologia e a astronomia são, por excelência, exercícios de consideração. Na antiguidade, as estrelas eram naturalmente utilizadas na orientação das viagens terrestres. Os árabes orientavam-se pelas estrelas quando as suas caravanas atravessavam os desertos. A estrela de Belém orientou os Reis Magos. Os navegadores, ainda hoje, quando não há o sistema de navegação via satélite, se baseiam em estrelas para orientação espacial. Desde as primeiras navegações no Mediterrâneo, se tinha a estrela Polar como referência.

Estando em nosso planeta, precisamos de referências externas para nos localizarmos em sua superfície. É como se, estando em um espaço que, para frente, para trás, para a esquerda e para a direita parece infinito ao horizonte, e tudo que se move neste espaço também se move em relação à ele; apenas um ponto acima dele, que se move regularmente e independentemente dele, nos assegurasse da nossa real localização neste espaço. O mesmo deve se aplicar sobre nos localizarmos como indivíduos — sei quem sou e para onde estou indo quando tenho uma referência externa, o outro, na minha frente.

Além de servirem como referência para localização espacial, as estrelas também permitiram o desenvolvimento da percepção temporal. Existem indícios de que, na pré-história (há 20.000 anos), eram feitas marcas em ossos para contagem dos dias entre as fases da Lua. Atualmente existem calendários baseados nos ciclos solares, como o calendário cristão, nos ciclos lunares, como o calendário islâmico, e nos ciclos do Sol e da Lua, como o calendário hebreu. O calendário dos Maias (2.000 a 1.500 e.C.) baseava-se também no planeta Vênus. Os dias da semana têm relação com as sete divindades astronômicas Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno, que ainda está presente explicitamente, por exemplo, na língua espanhola (Domingo, Lunes, Martes, Miercoles, Jueves, Viernes, Sábado)* e inglesa (Sunday, Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday, Friday, Saturday)**. Conforme o Velho Testamento, Deus disse no quarto dia da criação: “Façam-se luzeiros no firmamento dos céus…; sirvam eles de sinais e marquem o tempo, os dias e os anos” (Gênesis, I, 14).

O vocábulo pode ser entendido mais amplamente como observar atentamente a natureza, já que sideris também designa céu, noite, estação do ano, clima.

* Domingo deriva de Dominica dies, dia do Senhor. Sábado é uma referência ao sabá judaico, dia em que Deus descansou ao completar a criação (Gênesis, II, 1-3).

** Alguns nomes se referem a divindades anglo-saxônicas ou nórdicas. Tuesday equivale a Tiu’s day, Wednesday a Woden’s day, Thursday a Thor’s day, Friday a Freya’s day.