28 de julho de 2006

Fenecer qual águia

Aprendi a reconhecer o infinito ao naufragar em teus braços desassossegados e rompi serenidades ao beijar-te o pescoço. Porque naqueles instantes eu sabia te amar diminuto e transparente como chuva a lavar vidraças anônimas. Beijei-te as mãos sem tempo e devorei sem pedir teus dedos em derradeira sanidade. Porque era impossível simplesmente contemplar teu ventre sem fúria, impregnei sonhos atordoados com tua saliva e o meu futuro com o sal de tua pele. Teu suspiro leve e os desejos urgentes alternaram pulsos e sobressaltos em minha carne arrebatada. Fartei-me no efêmero e reuni memórias de luz para os tempos de solidão a silenciar meus olhos e o que restar.

22 de julho de 2006

Fragmento - IV

Assim se faz o caminho: o relevo aplainado pela vontade, a atmosfera suavizada pela emoção e a paisagem transformada em águas profundas, muito profundas.

Fragmento - III

Lancei-me ao mar e flutuei pequenino frente às lágrimas da terra.

Fragmento - II

Na presença efêmera dos sonhos, sei-me rei e réu a imperar sobre vazios e a abdicar de desejos.

Fragmento - I

A cada gesto descubro em tuas mãos o insondável de tantas vésperas de mim, de trilhas e alinhavos emudecidos, de contemplações transbordantes de silêncios. Eu que não sei de mim, insisto em reconhecer-me em tuas mãos. Nos arcos pairam segredo. No conjunto, beatitudes e inocências. Ardo embaraçado frente a tantos mistérios e desenho tua presença em minha memória. Teus gestos, contudo, esboçam um tempo fértil de tramas e urdiduras para além de todos nós.

21 de julho de 2006

Discipulado

A borboleta instala vitral na janela de meu quarto e um sol tímido me abraça por inteiro. Eu que desaprendi a ver cores e a não aceitar os limites de meu corpo agora faço companhia às amplidões dos homens e recomeço a brotar.

18 de julho de 2006

Miniature silencieuse - IV

Dei por mim a sentir a alma impaciente como véspera de desvairada tempestade. A casa flutuava em silêncios, em nudez desamparada, desértica, e o porão assombrado por imenso desassossego. Fechei os olhos e ninguém me vinha à memória, nem aos sentidos. Saudades, sim, sinto saudades das manhãs em que adivinhava sua fugidia presença, suas mãos pálidas, o humor embaraçado e os vestígios de outros solstícios. Abandonei o porão em que vivo e vasculhei cada canto da casa. Tudo em vão. E então fiquei por ali, na soleira da porta, assobiando desafinado, com as mãos empoeiradas a desenhar ausências e o mais longo e atormentado inverno nos olhos.

16 de julho de 2006

Gosto pela vida

Transcrevemos a seguir as delicadas palavras da amiga e jornalista Rose Campos, publicadas no site Guta Chaves:

O paladar renovado de uma mulher grávida revela de forma sem igual o sabor de viver

Dentre as muitas descobertas que a gravidez me proporcionou talvez a mais importante tenha sido uma apreensão mais ampla do sentido da vida. Acredito que toda mãe se surpreenda com o poder repentino de gerar dentro de si uma outra pessoa. Todo pai, eu imagino, deve regozijar-se com sua própria capacidade de semear esse fruto. E no papel materno minha maior preocupação, claro, foi — e continua sendo — com a qualidade desta nova vida.

O psicólogo Moacyr Morais, formado também em antropologia, me deu a grande dica: é preciso experimentar todos os sabores. Quanto mais, melhor. De tudo e sem preconceitos. Se possível, sem restrições. É uma forma sábia, ele acredita, de estimular o saber deste ser em formação. A palavra saber, nunca é demais lembrar, remete tanto ao conhecimento humano quanto aos sabores que a vida nos oferece. E parece não ser mera casualidade que comecemos a desenvolver o paladar ainda na fase intra-uterina. Um feto já começa a distinguir o amargo do doce e demonstra preferir este último.

Não só para defender sua opinião, mas para estimular a pesquisa e o debate sobre o assunto, Moacyr me sugeriu a leitura de “Os doze sentidos — e a metaforma da psique”, de Josef David Yaari (Hermes Editora). O autor argumenta sobre o item paladar que “saber é saborear. Saborear é o fundamento da sabedoria. Através do paladar, mergulhamos ainda mais na interioridade, na substancialidade das coisas. Ele é um farmacêutico que diz o que precisamos: doce, amargo, sal. O paladar permite suavidade e sutileza de percepção (’bom gosto’). A ausência de seu cultivo gera rigidez, dureza e desinteresse pela vida. Para continuar a viver, reforçamos nossas armaduras e nos tornamos doentes. Perde-se, assim, o sabor e a sabedoria.” Trata-se, de fato, de um princípio bastante sério e importante. Idéias para se pensar. E se formos além podemos descobrir também o prazer de vivenciar tal achado. De preferência, à mesa.

Eu, como muitas crianças, cresci desaprendendo a liberdade de experimentar — e de gostar de — novos ou até mesmo antigos sabores. Certas circunstâncias da vida adulta, no entanto, me fizeram resgatar a aventura de ampliar meu paladar. A mais significativa delas, devo admitir, foi justamente a gravidez e o estimulante conselho que eu acabo de relatar aqui. Se a gestação descortina uma miríade de descobertas, nada mais coerente que incluir aí, neste novo universo, os sabores. Até porque a verdadeira revolução de transformações psíquicas e corporais ocorridas neste período proporciona também mudanças inesperadas no paladar. Não é à toa que algumas mulheres grávidas têm desejos inusitados ou promovem misturas gastronômicas por princípio impensáveis.

Buscando novamente meu próprio exemplo, devo confessar que nunca tomei tanto sorvete em minha vida quanto nos nove meses de gravidez. E os sabores preferidos eram os cítricos, como limão, maracujá, abacaxi. Certo dia, ao ver na TV uma reportagem com as dicas de uma médica para evitar os famosos enjôos do período de gestação, a ouvi falar na eficácia de consumir — que coincidência! — gelo e limão. Ou seja, eu intuitivamente ou meu corpo sabiamente havia optado pelo que me fazia bem naquele momento.

Então, uma das doces lembranças que ficarão na minha cabeça, além da curiosidade e satisfação em torno da barriga que foi despontando e crescendo pouco a pouco, é justamente o prazer com que sorvi cada gota ou colherada de sorvete, fosse um picolé comprado às pressas num posto de gasolina enquanto abastecia o carro ou uma bela taça na melhor sorveteria da cidade.

Além disso, não perdi uma única oportunidade de provar a fruta da estação, o cardápio mais elaborado do restaurante, o canapé mais estranho do coquetel, o legume preparado de forma inusitada. Restrições? Apenas aquelas prudentemente impostas pelo médico. Carne crua, por exemplo, fui proibida até de manipular, pela falta de imunidade à toxoplasmose. Então, nada de sushis e sashimis, infelizmente. Em contrapartida descobri uma série de outras possibilidades gastronômicas. E o melhor. Com a curiosidade e o prazer renovados que posso comparar aos de uma criança. Melhor ainda: com a companhia de alguém que de fato começava a despontar para a vida e a provar seus muitos gostos inigualáveis.

Rose Campos é jornalista

10 de julho de 2006

Acromia

Até mesmo um álbum de fotos
alterna caleidoscópicos matizes
no folhear
distraído

Não sei o que acontece:

apenas o cinza irrompe
e célere vira fuligem
na certeza
da presença impossível.

8 de julho de 2006

Recorrente

Como a inocente Chapeuzinho Vermelho, caminhava pela floresta da vida, levando pão e vinho sacramentais para a velha sábia e adoentada porção de sua própria alma. Na travessia, porém, afastou-se do caminho por força de hábitos antigos, a tentação dos mundos sombrios.