Arquivo da categoria ‘Palavra’

22 de julho de 2005

Aquarela - 2

Do mestre em caligrafia ganhei ofício e palavras. E elas pediam mansidão, horizontes, tenacidades e silhuetas de futuros. Soavam amanhecidas como regatos e migravam livres nas ondulações do mar. Ali, as palavras se salgaram e fizeram meu corpo aspirar plenitudes e memórias. De aroma e dos contornos fartei o espírito que se rompeu como o pólen no despertar de um verão. As palavras se tornaram companheiras e, hoje, dançam em meus gestos e se aconchegam fiéis em minhas mãos ainda que a música se cale.

Olhar - 1

Busco palavras como quem olha paisagens. Ora as vejo ensolaradas e cálidas (em demasia por vezes), ora nubladas, sombrias como bilhetes desesperados de suicidas. Palavras sancionam paisagens, sempre. E preenchem meus olhos com histórias, vozearias e assombros miúdos. Palavras. Delas sempre sinto saudades.

17 de julho de 2005

Envelhecer - 26

Como os alimentos não nascem na boca, as palavras nascem no coração, Asyd.

15 de julho de 2005

Az-zaHar

O passado não passa. Antes, oculta-se nas palavras e nas dobras de minhas memórias. Basta espanar a poeira, ali depositada, e eis que tudo volta. À medida que falo, tudo me lembra os números dos cubos de um jogo: ora momentos de infortúnio, ora êxtases escancarados e sublimes. Provoco desempates ao pronunciar o seu nome ensolarado!

1 de julho de 2005

Biografia revisitada

Recupero a emoção das palavras que desconhecia na forma, mas acolhia na intensidade: sorrir, amar, caminhar. Da vidraça embaçada, a visão dos jasmineiros e dos sabiás, vocacionados para a liberdade e para o prazer. Da complacência dos adultos a insistir na bondade do mundo e a me ensinar devoção. Dos degraus do casarão da infância, nem sombras, nem esforço a intimidar meus passos. Hoje, reitero as bênçãos da avó: a cada passo brilha o sol e o caminho escolhido.

28 de junho de 2005

Ofício da escrita

Busco palavras que dancem
não à distância
como profecia de abandono
mas com hálito e calor

imprevisíveis, mas não infiéis
emocionadas, jamais lacrimosas
inflamadas como o rubor das manhãs

Procuro palavras apaixonadas
não gemidos fatiados como tristezas a varejo
nem farsas vulgares com tons de navalha
a copular ironias

Desejo palavras de discretos segredos
e carinhos arrebatados
a iluminar cumplicidades

Espero palavras
espiraladas
como vertigens do amor que virá

21 de junho de 2005

Legado alquímico

De tudo o que fui, restou-me o verbo, o som, as palavras. Uma delas existe sem que eu a conheça (oculta-se como o pensar divino e molda-me e a todas as coisas). A outra, penetra na orelha, desce espiralada e me fecunda de embriões em placas de cobre vermelho.

19 de junho de 2005

(Es)quina

Lembro-me apenas do nome que me deram e, mais perplexo que um cão, interrogo as ruínas de minha casa, os ventos a cingi-la, as nuvens ocasionais e o silêncio da viagem. Só me restam desarraigadas palavras a me poupar da barbárie e das ironias dos tempos.

15 de junho de 2005

Quando um inverno: erudição antecipada e intranqüila

Reservou-me a escravidão um semblante hostil. Não menos aos meus senhores. O meu é o de um lobo cinzento a resgatar minha identidade primeira. O deles é um qualquer, apenas para lhes ratificar a decadência.

A palavra sai do pensamento dos sábios como a farinha da peneira, diz o Rig-Veda. Em tempos de fome no corpo, eis o meu único alimento.

O que não pude realizar, construo na imaginação com a ajuda de fadas. Na escuridão, cintilam palácios que, num instante, se fragmentam com os ventos.

O sol está morto e repousa no país dos espíritos. Renascer na Primavera é o seu único sonho.

11 de junho de 2005

Laetitia (allegro)

Conter o frágil antes da chegada
Bailar os olhos em simples acalantos
Suspirar palavras na paz de todo o tempo
Impregnar-se em sonhos, em nuvens e desejos
Acolher momentos, o antes e o depois
Iluminar as vestes com mínimas palavras
Dançar ao sol, ao dia e ao instante
Aspergir luz no rosto e junto ao coração
Cantar silêncios de espera por você!