Arquivo da categoria ‘Palavra’

29 de maio de 2005

Corpo em marcha

Como Foucault, busquei legibilidade na escrita para afastar o riso constrangedor das outras crianças. Desnecessário dizer: não o consegui e me decepcionei. Refugiei-me, assim, durante anos, no silêncio para traduzir a vida. De início, as palavras ficaram por ali, silenciosas como inconsistentes marionetes à espera de meus dedos (saberiam expressar o que jamais ousaria dizer sem máscaras?). Depois, observei-as com cuidados e resgatei insuspeitos e acolhedores elementos da paisagem ao redor. Logo, as palavras se tornaram a secreta morada de meus dias juvenis. Pouco a pouco, descobri-lhes a forma, a textura, os sabores com o mesmo prazer das proibidas facas da infância. Nesse tempo, tomei-as por cinzel e me iniciei no ofício. De cinzel escultórico à faca foi um pulo. Hoje, minha caneta é uma poderosa faca com que fatio, retalho, corto e separo a natureza dos seres e das coisas, por firme e cruel experimentação.
Tempos virão em que ela, como tesoura de Átropos, escreverá, de modo súbito, as palavras de um desprezível epitáfio, o meu.

25 de maio de 2005

O poeta tecelão

(para o Til)

O retraído poeta, por tarefa, tecia com palavras e sonhava vulgaridades. Noite e dia, a rabiscar, a traçar e a esboçar o mapa do tempo da liberdade. E, culpado, consertava palavras como a costureira ao pano. E, refinado, concertava palavras como o flautista ao hino. Noite e dia, a mão imperfeita teimava em buscar o perfeito (branco sobre branco) de formas com inveja do D’us (nem de amor ou pesadelo era o grafite nas folhas, no vento e no lugar). Alcandorado, o poeta tecia, preso à dor e ao bocejo, enquanto a vida se esfumava. E, com rimas a lhe sombrear os dedos e a liberdade, lá ficava o poeta tecelão a sofrer teimosamente.

20 de maio de 2005

O menino e um retrato

(ao Cadu)

Ainda que eu me lembre das frases
de sombras alargadas por teu sorriso de sempre verão

Ainda que eu respire as palavras
despojadas de cores e com brilhos desmedidos

Ainda que eu adivinhe as sílabas
silenciosas de teu nome a inventar contornos esguios

Ainda que eu busque das letras
a textura a me impregnar de aconchegos

Só me resta o ruído de algumas sementes espalhadas ao vento.

12 de maio de 2005

Salmodia (reprint)

(para o Cadu)

da palavra
vazo a forma
o som da consoante
da vogal a luz

o vocábulo
da boca
ecoar
das linhas o juízo
das epístolas

vazar do verbo a ação
de caminhar
adiante
dos sons
a essência

calar nos olhos
a fala
e nos ouvidos
o dom

8 de maio de 2005

Par coeur

Abstraio-me de presenças.
Basta-me um caderno, et voilá:
cultivo palavras (couleurs du temps) e
deleito-me em observá-las.
Ébrias de luz,
fogem-me à compreensão e eu, de mim.
Garantem-me, assim, a essência de passados e,
hoje, desabrocham qual flores de futuro
incipiente, porém.
J’ai de frissons e
largo-me displicente (distante?) por elas:
meço-lhes o pulso de larvas
(Nina Simone irrompe em meu quarto) e
ouço-lhes a respiração de borboletas
por entre as folhas do caderno.
Quero, em segredo, despertá-las do pesadelo insone,
restituir-lhes a voz sem aparências.
Sem rumo,
tateio-lhes a desnecessárias vestes e
ultimo despedidas:
vão em paz!
(xingo-me pelos apegos e
zelo por seus vôos)

30 de abril de 2005

Vãos de meu ser

(da série Rascunhos)

Da alma, declamar emoções que não escolhem o que comer: singular ofício de escrita.
Farejar entrelinhas, escolher palavras, dissimular intenções (tornei-me andarilho em alheias lembranças). E letras, que desconheciam a luz, se aninham em parágrafos erguidos a cada passo com argamassa de silêncios.
Tornar-se, enfim, refém de olhos a espreitar os rastros de meus dedos.

28 de abril de 2005

Desconsolo

Roubaram-me palavras.
Desolado, busquei-as em vão.
Resigno-me a pensar: voltarão.

24 de abril de 2005

Esboço

Os instantes em que escrevo essa nota são de matéria arrebatada (embora desalentada) e não fluente. Fomos muitos a celebrar: os que aqui estamos e os que já estiveram. Um coração saltimbanco e uma esquiva nostalgia sustentam meu discurso emprestado. Agonizam umas palavras e, de resto, a inutilidade em ajeitar as demais. Perdi o vocabulário poético (jamais o reconheço), e a alma se arruma para um telefonema que não virá: antecipo excusas e me agarro a elas, antes de perdê-las. Sem palavras sensatas, como a desafiar ordenamentos, perambulo entre episódios quaisquer. A canção dizia “Faz três noites que eu não durmo”, e a rápida tragédia sempre me divertiu (adormecia placidamente talvez por ter ficado três noites sem dormir!). Agora, o desencanto desuniu palavras. O conto de fadas foi substituído por um de horror e, dele, resulta angústia (passei a me recordar do dia de minha saída das terras do Egito). Minhas provisões eram apenas palavras. Escrevê-las, hoje, é quase sempre estranho, não obstante a beleza da essência, e ainda que tenham decidido repartir a sabedoria antes de mim. Discorro em profundidade e me avisto venturoso. Que os meus ouvidos ouçam o que minha mão escreveu!

22 de abril de 2005

Alcanzias (reprint)

Ao olhar minha sombra em repouso, apressei-me em observá-la. Era uma caixa tão antiga, que se desfazia como papel, a tristonha, e abraçava palavras distantes e solitárias. Mirei-as sem constrangê-las. As palavras pediam calma e luz, como os homens do meu tempo. Meus dedos ásperos e quebradiços obedeceram, e elas se soltaram desconfortáveis e, na palidez, sorriram. Depois ensaiaram vôo de borboleta (eu as queria imortais) e se aninharam por aí em busca de um sentido real.

Nem o frio empalideceu-me o gesto. Tomei o conjunto de cartas com arrebatamento e as distribui sobre a mesa de trabalho. Os envelopes desenharam um tempo. Os sobrescritos inscreveram paisagens. Eram notícias da vida, eram surpresas do antes. Diante de meus olhos, as cartas se transformaram em hortos silenciosos. O frio queimava os dedos, as cartas aqueciam a memória. Cada envelope desfiava música, e as harmonias se orquestravam no tempo. Reverente, abri os envelopes e depositei as missivas num outro canto da mesa, que se invadiu de luz. Meus olhos aninharam as palavras, e o dia tomou o sabor do aniz.

Em tuas mãos, palavras são veludos de singular beleza: brilham e se recolhem dignas ao toque. Em meus lábios, palavras adormecem qual insípida água morna a dissipar calor. Acolho o silêncio (acredito-me respeitoso), enquanto tramo falas como aranha em seu ofício. Enregelado, ainda espero o teu retorno.

21 de abril de 2005

À guisa de alcanzia - II

Alinhadas, as gavetas miravam o comum em meus gestos descuidados.
Gavetas, porém, um dia se abrem (talvez guardem a memória de, como árvores, se abrirem ao sol!). Estavam cheias de palavras, verdadeiros refúgios para o meu alfabeto de menino. Eram antigas, e me assustaram (pudesse eu dizer o quanto a distância se fez dor!).
Espalharam-se entre os meus dedos e, nas palmas das mãos, sobraram poucas, o suficiente para escrever esta nota. As demais ensinavam a me calar.