Corpo em marcha
Como Foucault, busquei legibilidade na escrita para afastar o riso constrangedor das outras crianças. Desnecessário dizer: não o consegui e me decepcionei. Refugiei-me, assim, durante anos, no silêncio para traduzir a vida. De início, as palavras ficaram por ali, silenciosas como inconsistentes marionetes à espera de meus dedos (saberiam expressar o que jamais ousaria dizer sem máscaras?). Depois, observei-as com cuidados e resgatei insuspeitos e acolhedores elementos da paisagem ao redor. Logo, as palavras se tornaram a secreta morada de meus dias juvenis. Pouco a pouco, descobri-lhes a forma, a textura, os sabores com o mesmo prazer das proibidas facas da infância. Nesse tempo, tomei-as por cinzel e me iniciei no ofício. De cinzel escultórico à faca foi um pulo. Hoje, minha caneta é uma poderosa faca com que fatio, retalho, corto e separo a natureza dos seres e das coisas, por firme e cruel experimentação.
Tempos virão em que ela, como tesoura de Átropos, escreverá, de modo súbito, as palavras de um desprezível epitáfio, o meu.